quinta-feira, 3 de junho de 2010




haveria algo por se dizer?
que fosse inédito o feito,
exclamado ou interrogado?
junções soberbas de palavras raras,
como as pérolas inventadas?
penso que não, tudo se disse,
tudo se escreveu.
ainda nos encantamos com as frases,
e nos enamoramos das mentiras.
amamos a melancolia.
sorrindo, a poesia de mansinho,
se faz nova todos os dias.

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fátima nogueira

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imagem*uma nota só

quinta-feira, 27 de maio de 2010




o silêncio é o meio denso
da linguagem da alma.
o silêncio é transparência
que não carece de pudores.
o silêncio é porto seguro
das bocas cansadas
o silêncio é pombo-correio
traz de longe, muito longe
o sorriso e o devaneio,
o silêncio é um menino
pego em pleno desatino.
o silêncio se faz de inocente,
reza a lenda:quem cala consente.

fátima nogueira.

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imagem*teobservo wordpress
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música*It's oh so quiet - lisa ekdahl
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terça-feira, 18 de maio de 2010



ser poeta é olhar sempre a mesma coisa e
todos os dias enxergar diferente,
um risco, um rabisco,
 é ser inquieto, só por dentro.
 ser manso quando convém e quando
não convém também.
ser poeta é ser rosto solto na multidão,
ninguém percebe, passa batido.
ah! lá se vai um poeta?!!
não! ninguém diz, ninguém sabe da gente.


fátima nogueira


imagem* ricardo zerrenner

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música* fernanda takai _ insensatez
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domingo, 16 de maio de 2010





em flores piso, com flores me deito,
colho estrelas, no céu desenho alegrias,
vivo um dia depois de outro dia
depois de outro dia depois de outro dia.
aprendo a ser mansidão e calmaria.
falar do que não sei com sabedoria,
rimar puramente por alegoria,
que me perdoe a insensata poesia
só mesmo um dia depois de outro dia
depois de outro dia depois de outro dia.

fátima nogueira
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imagem*carla d´almeida lopes

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música*celtic women - you raise me up

quinta-feira, 13 de maio de 2010




se eu chegasse tímida
se tivesse flor nos cabelos,
se aquela água de cheiro
deixasse um rastro azul.

faria tudo diferente,
te pegaria ausente,
te levaria para ver a lua,
para te fazer silente,
naquele marzão de céu.

se eu cantasse aquela
que embalara nossa espera
ficaria meio sem graça,
na derradeira hora,
daquela linda quinta-feira.



fátima nogueira


imagem*uma nota só

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música: doce solidão _ marcelo camelo
*para ouvir, acesse a caixinha.

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segunda-feira, 10 de maio de 2010




o que é a vida, senão uma teia?
frágil, pequena, morena , sem jeito.
alvo, presa e alimento.

o que é a vida, senão uma teia?
caído nela o desespero,
solto por ela todo o sentimento.

o que é a vida, senão uma teia?
liberdade, prisão, sofreguidão e paixão.
solto por ela o poder, preso nela o desejo.

fátima nogueira


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sexta-feira, 7 de maio de 2010



no sentido lato, no momento exato,
um tom de carbono, meio roxo, meio não;
sem saber faço versos,
sem querer engano palavras,
umas saltitantes, outras retraídas,
algumas se casam, muitas se separam
haja nexo para tanto desassossego.
haja verbo para tanta calmaria.

fátima nogueira.


imagem* uma nota só
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hoje sou uma dor só, esses ipês que me levaram a
escrever e me perder nas cores e nos sentidos,
hoje não existem mais - por força de uma autorização,
eles vieram ao chão - não é possível tanta beleza se
perder assim, não é cabível que mutilem o universo
dessa maneira. não pude fazer nada!! não me cabia nada
a não ser denunciar, e o fiz, mas eles tinham papel assinado,
por um alguém que com certeza não sabe o que é beleza!!
não se encanta todos os dias com a natureza, nem ouve
quando ela berra de dor. hoje foi um dia assim
e eu? eu sou um nada. e eles?  nunca mais florescerão assim.


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música*lux aurumque - eric whitacre

quarta-feira, 5 de maio de 2010




    eu sem você sou dias da infância,
um recordar sem fim, numa tristeza mansa,
eu sem você sou descaminhos do medo,
perdida numa avalanche de segredos.
tenho a urgência das crianças.
e esperar é mais que tormento.


fátima nogueira



segunda-feira, 3 de maio de 2010





para não perder o caminho de casa,
lançarei palavras ao chão que formarão uma trilha,
bendita ela, que me trará de volta.

se alguém as encontrar dirá palavras minhas,
se alguém as destruir, deixará que eu me perca.
se alguém cuidar delas, serão poesia.

fátima nogueira

imagem* uma nota só

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música* meu jardim -  vander lee

domingo, 2 de maio de 2010





uma réstia de sol feito lâmina corta-lhe o rosto.
abre os olhos e o dia não deixa duvida - amanheceu.
pensa na vontade de ficar o dia todo na cama,
deixa-se por longos dez minutos, e as urgências
lhe tomam de assalto - tenho que telefonar para ele!
empinando da cama desfeita, desordenadamente desfeita,
antes de tudo vai ao espelho, um bom dia, sussurra -
perde-se na nova ruga que da noite para o dia aparecera -
seria meu presente de aniversário?
não estava ai na noite passada - ou não vi, estica a pele,
olha de canto de olho, faz careta e não adianta, já tatuou.
rende-se a ela, tentando adivinhar como nasceu.
não são só as preocupações que causam rugas, não!
num devaneio pensa num leito de rio, nas águas que
desenham suas linhas, os sulcos as erosões e tudo
fazendo o desenho da vida, caminhos traçados
insistentemente no mesmo lugar, uma, duas,
três vezes, e as linhas são feitas, caprichosamente.
caprichosamente? recobra o dia - e há capricho em envelhecer?
pega a escova de dentes, rega nela o creme, escovando
vagarosamente com os olhos fechados, e o som
que isso provoca é quase de um furacão.
ah! o tango! lembra do tango que na noite anterior lhe
serviu de ninar, então sorri, descobre finalmente
de onde vem aquela ruga, e a ama profundamente


Fátima N.


imagem*alba luna

música*ne me quitte pas - nina simone